Aquele que esquece está destinado a lembrar pelo arrependimento
Embora o arrependimento seja, em sua essência, algo bom, pois reflete a percepção de nossos próprios erros, ele costuma trazer uma péssima e duradoura sensação à pessoa arrependida. De forma quase inevitável, algum dia tivemos o desprazer de conhecê-lo e não havia nada que pudéssemos fazer além de senti-lo expandir dentro de nosso peito a cada pensamento. O sentimento que ele traz é como uma percepção extremamente precisa do vazio que se apodera dentro de nosso ser, nos deixando ocos e, momentaneamente, desprovidos de sentido.
Vale dizer que há diversos níveis de arrependimento. Você pode sentir-se arrependido por ter comprado uma camiseta na semana passada que, hoje, encontra-se em promoção. De fato, estas pequenas lamentações sempre nos acompanham, mas — claramente — não estou me referindo a isso neste texto.
O arrependimento que traz esta percepção do nosso vazio envolve-se com fatores muito mais importantes e valiosos; como partes da essência que compõe o nosso ser. Trata-se do fato de não ter estado por perto quando se podia, de não ter acariciado o rosto daquele que tanto precisava do seu carinho, de não ter se despedido daquela pessoa amada que se foi — para longe ou para sempre, de ter se omitido quando a oportunidade estava justamente em sua frente, ter ido na direção oposta quando bastava abrir os olhos, não ter visto o visível, não ter vivido o que havia sido chamado a se viver...
A lista é imensa. Na realidade, cada pessoa tem a sua própria lista com o acúmulo de suas más ações e omissões. Todas as pessoas possuem este pergaminho cheio de falhas as quais não se orgulham. Isso porque todos nós erramos quando não queríamos ter errado, às vezes de forma tão rude e gritante, às vezes de forma tão tácida e silenciosa. Dolorosas lembranças é o que sobram, de um jeito ou de outro.
O esquecimento é uma das principais forças que impulsionam omissões que, posteriormente, geram arrependimento. Por mais importante que as pessoas que amamos sejam, não raramente, nos esquecemos de agradá-las com o mínimo possível, seja com a nossa simples presença, com o nosso simples "bom dia", seja com o nosso tão valioso tempo.
Há alguns anos atrás, assistindo a série The Blacklist, uma fala do personagem principal, Raymond Reddington, me chamou a atenção. Ele disse:
"Há elementos fundacionais em nossas vidas: pessoas que formam a base de quem somos. Pessoas tão profundamente incorporadas em nossas vidas que não valorizamos a sua existência, até que, de repente, elas não estão lá. E nós entramos em colapso."
Por vezes, deixamos as pessoas que mais amamos cair no esquecimento ao longo dos dias, semanas, meses e anos... Aquelas pessoas, que, de tão profundamente incorporadas em nosso ser, deixam de ser lembradas na correria do dia a dia. E então chegamos à verdade incontestável e dolorosa: aquele que esquece está fadado a lembrar pelo arrependimento.
Isto é, tudo aquilo que realmente importa e, ainda assim, é jogado no esquecimento, voltará de forma absolutamente rígida, a fazer percebermos finalmente o tamanho do espaço que aquilo, ou aquele, ocupava em nossa alma, no lugar mais íntimo do nosso ser. Porém, ao percebermos isso, tudo será vazio. Pois assim como o ser amado foi esquecido, o amor que um dia ali ocupava não foi alimentado, logo não se sustenta e nunca mais se sustentará na dura realidade da vida. A sensação do vazio, esta precisa percepção de nossas omissões, se manterá.
É preciso lembrá-lo a abraçar aquela pessoa hoje? A pedir desculpas àquele amigo? A telefonar para aquele familiar que não encontra há tanto tempo?
O que está esperando, afinal?

Sou teu fã. Continue com este trabalho!
ResponderExcluirObrigado, Marcio! Continuarei com certeza!
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